“Mas porque esse assunto é tão importante pra você?”
Eu adoro o fato de que tenho opiniões bem definidas sobre determinados assuntos e na hora que alguém mais experiente me faz uma pergunta simples eu fico hesitante e não sei o que dizer. A mesma pessoa que me fez essa pergunta diria que isso acontece pela minha insegurança. Por que eu sou um poço de autoconfiança e insegurança ao mesmo tempo, e se eu acreditasse em astrologia diria que isso é coisa de geminiano, mas a verdade é que é tudo resultado (culpa) da minha criação – não estou aqui colocando culpa nos meus pais, criação envolve família, amigos, escola e tudo o mais com o que você convive.
É engraçado que eu sempre tive um pouco disso. Entre meus ‘colegas’, sempre me senti um pouco acima (ninguém mandou me apelidar de ‘dicionário’), mas entre pessoas mais velhas e mais estudadas eu me sinto um abismo de ignorância. É como se as minhas opiniões não valessem por eu ter lido menos, vivido menos, não tenha na minha cabeça a lista dos melhores jornais publicados na Moldávia. Deixei de fazer muitas coisas por causa disso. Todos os meus colapsos nervosos em relação ao CACD são resultados disso. Em um (!) aspecto, eu concordo com a minha mãe sobre a minha participação em modelos da onu: ter contato com pessoas da mesma idade que viajam para o leste europeu, realmente sabem do que estão falando nas simulações (eu só fingia que sabia), opinam com argumentos sobre tudo, estudam nas melhores universidades e têm acesso aos melhores professores, bibliotecas e cursos preparatórios, bem, não ajuda muito. E aí você tem pessoas repetindo que você tem conhecimento adquirido, que você lê muito (grande porcaria) e bla bla bla, bom, isso é ladainha e não ajuda em nada. Eu não achava que seria capaz nem mesmo de fazer uma monografia. Bem, eu fiz, e tirei 10, assim como 95% da minha turma. Não desmerecendo o trabalho deles, mas se a grande maioria (existe pequena maioria?) tira a nota máxima, acho que isso diz mais sobre as bancas avaliadoras do que sobre os trabalhos individuais. E desmerecendo o trabalho deles, em uma das poucas matérias que tivemos com um professor realmente foda, que saía da ‘caixa’ (ter bons professores em matérias como processo civil significa simplesmente que você aprende a usar de forma inteligente os instrumentos a sua disposição, mas não necessariamente desafia a pensar – isso você vai fazer sozinho quando for trabalhar se tiver capacidade para tanto) – anyway, a maioria dos meus colegas não gostava das aulas dele, por esse mesmo motivo, porque ele não repetia o que estava escrito nos livros e nos forçava a ler e pesquisar. Aparentemente, eu fui umas das poucas que fiz isso, porque em dos momentos mais horrorosos da minha vida acadêmica, ele usou a minha prova de modelo para explicar para a turma porque eles haviam zerado a prova. Vocês podem imaginar o quanto a turma ficou grata à minha pessoa (mas tudo bem, dois anos depois eu desmaiei na aula, quebrei o dente que por sua vez quebrou minha boca, o que resultou na imagem da minha pessoa desfalecida, roxa e sangrando horrores, pânico geral e colegas chorando a minha mote – sério. Ganhei simpatia). É claro que usar a prova de um aluno dessa maneira foi um equívoco do professor, mas mesmo assim, o fato da turma ter ficado indignada porque alguém ousou ler livros além da bibliografia básica e não trechos deixados no xérox e citar vários autores na prova diz muito sobre a qualidade dos alunos e das nossas universidades. Sempre achei estranho que a média exigida pela USP é 5,0 enquanto que na maioria das universidades, inclusive na minha, a média é 7,0. Bom, pelo contato que eu tenho com alunos da USP, eles fazem aquilo que poucos professores por aqui tentaram fazer, e não obtiveram sucesso. Cheguei a ter a mesma professora na única área do Direito que me interessa, mas ela acabou saindo no meio do semestre e a turma respirou aliviada por estar livre de um exame e provável reprovação. Outra foi alvo de críticas por dar aulas pesadas demais – “ela deveria dar aula para alunos de doutorado” – quando na verdade nós só não conseguíamos acompanhar por simples falta de hábito. A qualidade de ensino que tivemos no primeiro semestre não foi mantida durante o restante do curso, e se alguém levantar o argumento de que estudei em uma faculdade particular, saiba que os professores eram os mesmos da universidade federal (Santa Maria é uma cidade pequena com 270.000 habitantes) e a única diferença era que não precisávamos organizar seminários para levantar dinheiro para a compra de livros para a biblioteca.
Nesse ponto, aliás, nós tínhamos um professor que perdia aulas e aulas reclamando do nosso comportamento. Que não estudávamos, que os alunos da federal eram muito mais aplicados, que não podiam usar notebooks nas aulas porque as tomadas não funcionavam, muito menos havia internet wireless à disposição. Se ele utilizasse o tempo da aula para nos ensinar ao invés de tentar nos deixar para baixo, teríamos aprendido muito mais. E nos cadernos dos alunos da federal, muitas aulas constavam de um único parágrafo (como as nossas anotações no Word), e muitas sentenças terminavam em reticências – geralmente ele divagava em alguma anedota sobre o trabalho dele no Judiciário. Não posso afirmar que ele elaborava provas mais fáceis para a nossa turma do que para os alunos da federal (eu, pelo menos, me lembro de estudar muito para as provas dele), mas se ele fazia isso, não vejo como isso é nossa culpa. Professores que querem que seus alunos aprendam de verdade exigem o nosso máximo e não o nosso mínimo.
(pequena pausa: eu cursei alguns semestres de Ciências Sociais na federal, e larguei porque não via futuro. E não vejo como a falta de recursos financeiros – que na verdade eram e devem ser ainda, enormes mas desviados para o bolso de muita gente -, influencia no esforço dos alunos. Cadeiras quebradas e teto com buracos não ajuda nem atrapalha ninguém. Eu tinha um outro olhar sobre os professores do curso por ter um colega na faculdade, extremamente humilde e absurdamente inteligente, que é Phd e professor da pós-graduação o curso, e eu já sabia de antemão as dificuldades que enfrentaria. A área que eu queria – política – possuía um professor e meio. Os livros requeridos não existiam na ‘biblioteca’, e eu não sei como a maioria dos meu colegas, a sua maioria de baixo poder econômico, fazia para obter os livros. Lembro que alguns alunos que já haviam cursado aquelas matérias vendiam seus livros – deixando assim de ter livros importantes à sua disposição. Sem falar que o grande mal da federal – daqui, pelo menos – são os próprios professores. Enquanto os professores das particulares continuam seus estudos e trabalham com afinco para manter o seu emprego, professores da federal fazem um mal acabado doutorado para imediatamente se aposentar com um salário maior. As poucas exceções acabam sendo rechaçadas por esses professores).
Olha eu divagando como um professor incompetente.
A questão é que: muitas vezes, até mesmo aqui, eu acabo ficando com medo de me expor. Na época de um dos últimos (e sangrentos) conflitos entre israelitas e palestinos (por que se fala “entre judeus e palestinos”? Por que não “judeus e árabes”? Sim, há árabes fora da Palestina, da mesma forma que há judeus fora de Israel), eu cheguei a escrever um texto bem argumentado (do meu ponto de vista, anyway) e antes de publicá-lo li outro texto – nem lembro de quem agora – que falava exatamente o contrário, e eu acabei deixando de lado. Claramente essa pessoa sabia mais do que eu. Agora, por exemplo, tenho a sensação de que alguém está lendo isso e encontrando vários erros e sacudindo a cabeça pensando “quem diabos ela é e que bobagens são essas?”. Bom, pelo menos aqui, ninguém vai me dizer isso na cara. Se eu quiser, posso deletar comentários.
Eu penso que – e agora contrariando o que eu disse no ponto 8 do último post lá do Pgaol – muito disso é derivado da minha criação. Por mais que meu pai, há muito tempo, tenha me desafiado a contrariar as opiniões dele, e minha mãe se gabe pra os outros da minha inteligência, isso nunca valeu para opiniões dentro de casa, em assuntos familiares. Nunca houve liberdade de expressão, por assim dizer. E aí você vai dizer que “ah, mas ninguém contesta os pais”, mas cada um tem o seu ambiente familiar. Crescer com um pai que poderia ser General do Exército durante a ditadura regime militar e uma mãe que não o contestava antes por achar normal e agora não o faz para evitar conflitos e colocar tudo a perder não é exatamente fácil. Nunca houve nenhum tipo de abertura. A máxima do “não é não” sempre foi levada ao pé da letra por aqui. Ainda hoje, quando eu tento expor meu ponto de vista e fazer alguma coisa, eu estou errada e não entendo as coisas. É engraçado minha mãe reconhecer que minha irmã e eu fomos criadas de uma maneira extremamente severa, mas afirma que eu sempre fiz tudo que quis. Como assim? Eu não entendo. Eu não entendo o conceito de responsabilidade, mas ela nunca deu oportunidade para eu quebrar a cara, sempre deixou eu desistir de tudo quando encontrava a menor dificuldade. Minha irmã mais velha casou, tem um bom trabalho, é independente, tem planos de ter filhos, enquanto eu sou completamente screwed up, e eu tive que ouvir esses dias que ela sempre achou que quem sairia traumatizada da história seria a minha irmã. Como assim? Não entendo.
Vocês notem a diversidade de temas nesse texto. Reflexo da minha total falta de organização. Que por sua vez é um reflexo da total falta de organização dos meus pais e da minha vida familiar como um todo. Do absurdo – do meu ponto de vista, que é sempre errado – que é as pessoas exigirem de mim mais independência, quando qualquer tentativa é bombardeada com o argumento de que eu não tenho autonomia financeira (e é seguido por um tratamento de gelo e você é obrigado a discutir não com a pessoa que causa os problemas, mas sim com quem está tentando remediar a situação). Bom, nós como família não temos isso. E eu não tenho só que me alimentar e pagar a conta de luz, tenho que pagar pelos meus remédios, nada baratos e para problemas físicos que não estão ao meu alcance curar, como poderia ser como uma depressão, por exemplo. Eu acabei de me formar. Onde vou arrumar um emprego que me garanta isso? Passar no CACD, obviamente, é uma saída. Mas eu ainda não encontrei um modo organizado de estudar nem tentativas que não sejam interrompidas por problemas, dia sim dia não. É fácil falar “pega um livro e estuda”, quando não se vive em um caos, e você não é um pessimista por natureza. Quando você tem pensamentos extremamente negros. Eu ainda não achei uma saída. Se tivesse, não estaria aqui escrevendo ao invés de ler “O Brasil e a Liga das Nações – vencer ou não perder”. No momento, eu não me vejo vencendo.
Um dos motivos pelos quais eu havia decidido não escrever mais coisas assim, é que mesmo que você reitere, poucas pessoas entendem que certos comentários não são de bom grado. Ninguém sabe pelo o que o outro está passando e poucos acertam no tom. Eu poderia contar nos dedos os amigos que conseguem tal façanha comigo. Como eu disse, os nossos calos sempre doem mais. Eu admiro muito uma amiga que passou e ainda passa por uma situação completamente diferente da minha e eu considero que seja ainda pior, mas que é uma pessoa alegre que reconhece que o presente é difícil mas acredita que o futuro só tende a ser melhor. Eu não sou assim. Provavelmente estou me sentindo pior agora porque o fim do ano está chegando e não há nada que eu odeie mais do que o Natal e principalmente o Ano Novo. O Natal não é nem ao menos comemorado na minha casa, e eu odeio desejar feliz Ano Novo as pessoas quando todo ano que se renova é apenas continuação das mesmas situações ruins. Não há nada especial na mudança do calendário. Dia 1º de janeiro não traz nenhuma promessa de coisas boas por vir, a não ser as férias de quem trabalha 50 semanas por ano.
O objetivo desse texto? Absolutamente nenhum. Desculpa se você chegou até aqui esperando alguma coisa. É, mais ou menos, como a virada do ano. Pointless.
